miro div

Miro o escriba

Está na hora de triturar todos os sonhos para ver se extraímos de nossas quimeras, ao menos, uma gota de sangue.

Ricardo Rodrigues

Desembarquei no Largo da Lapa. Uma fila de indigentes se estendia pela calçada, uns comiam sentados no chão, outros aguardavam a distribuição da sopa. Do outro lado, numa das extremidades dos arcos, era possível avistar barracas armadas sobre o gramado. Caminhei até lá e depositei minha mochila num canto. Bem ao fundo, incrustada sobre as pedras que se erguiam até o alto do morro, havia uma imagem de Zé Pilintra. As chamas das velas no altar balançavam com o vento e dividiam o horizonte com os LEDs vermelhos que piscavam intermitentes logo atrás, no prédio da Fundição Progresso. “E agora, José? (…) Sozinho no escuro qual bicho do mato, sem teogonia, sem parede nua para se encostar, sem cavalo preto que fuja a galope, você marcha… para onde?”

***

Fragmento de “Miro”, um quebra-cabeça literário em forma de romance que estou escrevendo e montando desde 2015. Miro é um personagem e uma obra ficcional inspirada nos doidos que conheci. Mistura de autobiografia com prosa poética. Peleja experimental. O poema “José”, de Drummond, figura no livro como um marcador temporal e espacial; ele ajuda o personagem em sua passagem de leitor aventureiro para escriba indigente. É Miro, é Zé, é Drummond e todos que estão perdidos, com pedras no caminho e escorpiões nos bolsos.

Que a poesia nos dê forças e que Zé nos proteja.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *